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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

O confrontador do establishment

  Campos de Carvalho — em todas as narrativas que escreveu — demonstra notável domínio de linguagem, riqueza de vocabulário, precisão semântica, agilidade das frases sempre bem construídas e sábia alternância entre períodos longos e breves. Tudo isso, exerce fascínio sobre o leitor atento.  Nada na escrita de Carvalho fica por conta do acaso ou da improvisação irresponsável. A linguagem de que ele se serve é de fazer inveja a qualquer clássico da língua. Tal linguagem conduz enredos pouco convencionais.  A lua vem da Ásia , por exemplo, apresenta um personagem — “Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo” — em um local que pode ser hotel, campo de concentração ou hospício. Aparentemente, a loucura mostra-se o tema central da narrativa. Mas isso seria apenas uma metáfora, despiste de escritor genial. ‘Loucura’ é a mediocridade da nossa vida cotidiana — aí, sim, impera a lei do absurdo. Há muito mais lou...

Testemunho do nosso tempo

  A marca da crônica em branco A crônica tem, no Brasil, uma tradição respeitável que vem do Portugal de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e esplende entre nós com nomes como Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, José Carlos Oliveira, Paulo Mendes Campos e, mais recentemente, Luís Fernando Veríssimo, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Mas o que é a crônica? “Até se poderia dizer que em vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu” , ensina o crítico Antonio Candido em “A vida ao rés-do-chão”.  Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu  quantum satis  de poesia, representa o amadurecimento e o encontro   mais puro da crônica consigo mesma. E mais: em lugar de   oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma si...

Flâneur de São Paulo

  A partir do século XIX, com origem no folhetim, a crônica firmou espaço nos periódicos nacionais. Desenvolveu-se como gênero jornalístico de viés literário, apreciado pelo público leitor. E por sua narrativa leve ou densa, consolidou sua importância. Mesmo sendo considerada pela imprensa matéria relevante, a crônica conquistou lugar no percurso aberto por escritores que, ao lado de obra significativa em outros gêneros literários, consagraram-se também como cronistas. Marcos Rey, romancista, contista, roteirista de cinema e televisão, ocupa lugar de destaque nessa área das letras. Seu nome pontua e sublinha a história da crônica. Para a coletânea Melhores Crônicas * foram selecionadas cem crônicas, do período de 1992 a 1999, publicadas numa famosa revista de alcance nacional, pois mantinham leitores fiéis. Nota-se que os organizadores procuraram salientar a diversidade temática, a criatividade, a narrativa bem estruturada e também a linguagem coloquial, característica do escritor....