Pular para o conteúdo principal

Flâneur de São Paulo

 



A partir do século XIX, com origem no folhetim, a crônica firmou espaço nos periódicos nacionais. Desenvolveu-se como gênero jornalístico de viés literário, apreciado pelo público leitor. E por sua narrativa leve ou densa, consolidou sua importância.

Mesmo sendo considerada pela imprensa matéria relevante, a crônica conquistou lugar no percurso aberto por escritores que, ao lado de obra significativa em outros gêneros literários, consagraram-se também como cronistas.

Marcos Rey, romancista, contista, roteirista de cinema e televisão, ocupa lugar de destaque nessa área das letras. Seu nome pontua e sublinha a história da crônica. Para a coletânea Melhores Crônicas* foram selecionadas cem crônicas, do período de 1992 a 1999, publicadas numa famosa revista de alcance nacional, pois mantinham leitores fiéis. Nota-se que os organizadores procuraram salientar a diversidade temática, a criatividade, a narrativa bem estruturada e também a linguagem coloquial, característica do escritor.

A crônica de Marcos Rey flui como uma conversa de bar, um diálogo entre amigos. Às vezes, como breve narrativa de fato hilário. Mas, aprofunde-se o leitor no texto de fluência prazerosa e se verá entregue a reflexões mais densas. Sob a leveza aparente, a profundidade das mazelas humanas. A narrativa leve traz, subjacente, o conteúdo social. O escritor paulista usa a sua cidade como pano de fundo. Mostra nas crônicas o cenário urbano. Sua criatividade encontra nas pessoas que povoam a metrópole, e em fatos cotidianos, o material com que estrutura a crônica.

Conhecedor de produções literárias nacionais e estrangeiras, grande apreciador de cinema, Jazz e musicais, sua cultura multifacetada fornece-lhe o assunto, cerne da crônica. Memória, realidade e ficção envolvem-se na paisagem urbana. Personagens cruzam ruas, praças, becos, bocas da pauliceia. E a memória do autor cruza a ficção, traz a presença de amigos em noites que se alongam em bebida e conversa. Os Bares da Saudade, revivem o Paribar, o Clubinho (Clube dos Artistas e dos Amigos da Arte), na Rua Bento Freitas, o Barzinho do Museu (Museu de Arte Moderna, na Rua Sete de Abril). O cronista passa atrás da Biblioteca Municipal, entre no Paribar, encontra o papo inteligente de Sérgio Milliet, além de Cláudio Curimbaba de Souza, amigo notívago, é o companheiro assíduo das noitadas boêmias.

No romance Ópera de Sabão, mantém, ao lado do painel sociológico, as mais gostosas características desse autor paulista: a oralidade concreta dos diálogos, o picante das situações eróticas, a captação de personalidades em poucos e reveladores traços, o sarcasmo como arte crítica, sem pretensões literárias. A ironia de Marcos Rey é destituída de amargura ou maldade. Seu humor refinado aproxima-se do wit (habilidade de fazer piadas inteligentes e espirituosas) expresso na língua inglesa. Servem ao humorismo do autor pessoas – como O Rei da Boca-Livre – muitas vezes encontradas em eventos, literários ou não. Eles surgem da leveza de seu estilo irônico.

Em O Coração Roubado, Sobrevoando Casablanca, Prêmio de Consolação, enfatizam o prazer da leitura; mas, certamente, o próprio leitor, atento às crônicas que mais possam cutucar-lhe a inteligência e a emoção, há de ser suas preferências.

Sem ser especificamente um historiador, o cronista faz o retrato de sua época. Sendo testemunha dos hábitos e comportamento de personagens inseridas no panorama de sua vivência. Normalmente colocados em tom patético, a crueldade, a aventura e a denúncia fazem da sua literatura uma das mais importantes e modernas de nosso país. É impossível negar o grande talento narrativo desse escritor, que nos coloca perversamente a realidade dos becos da grande cidade e dos bastidores da cultura tupiniquim.

Trata-se de um escritor clássico. Quantos são os escritores do Brasil que podemos tentar o fato de terem criado um universo absolutamente pessoal, coerente, em pleno desenvolvimento e extremamente cheio de vida como o escritor de O Enterro da Cafetina, Memórias de um Gigolô e Soy Loco por ti, América? Quantos dos nossos atuais escritores podem ostentar o galardão de contar estórias de escaninhos do mundo sem se perder em deslizes que redundam naquele mortal e primário erro literário já apontado (e cometido) pelo mentor intelectual do movimento Modernista de 1922: o desnível entre a linguagem do narrador e a de seus personagens terminando por artificializar a uns ou outros, e que foi o grande mal de nosso regionalismo?

 *Direção de Edla van Steen, seleção e prefácio de Anna Maria Martins, Global Editora, São Paulo, 2010

 

 

 

 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PAU

pau-brasil em foto de Felipe Coelho Minha gente, não é de hoje que o dinheiro chama-se Pau, no Brasil. Você pergunta um preço e logo dizem dez paus. Cento e vinte mil paus. Dois milhões de paus! Estaríamos assim, senhor ministro, facilitando a dificuldade de que a nova moeda vai trazer. Nosso dinheiro sempre se traduziu em paus e, então, não custa nada oficializar o Pau. Nos cheques também: cento e oitenta e cinco mil e duzentos paus. Evidente que as mulheres vão logo reclamar desta solução machista (na opinião delas). Calma, meninas, falta o centavo. Poderíamos chamar o centavo de Seio. Você poderia fazer uma compra e fazer o cheque: duzentos e quarenta paus e sessenta e nove seios. Esta imagem povoa a imaginação erótica-maliciosa, não acha? Sessenta e nove seios bem redondinhos, você, meu chapa, não vê a hora de encher a mão! Isto tudo facilitaria muito a vida dos futuros ministros da economia quando daqui a alguns anos, inevitavelmente, terão que cortar dois zeros (podemos d...

Trechos de Lavoura Arcaica

Raduan Nassar no relançamento do livro em 2005 Imagem: revista Usina             “Na modorra das tardes vadias da fazenda, era num sítio, lá no bosque, que eu escapava aos olhos apreensivos da família. Amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma, vergada ao peso de um botão vermelho. Não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor velando em silêncio e cheios de paciência o meu sono adolescente? Que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda?” (...)             “De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo...

O Visionário Murilo Mendes

Retrato de Murilo Mendes (1951) de Flávio de Carvalho Hoje completaram-se 38 anos de seu falecimento Murilo Mendes, uma das mais interessantes e controvertidas figuras do mundo literário brasileiro, um poeta difícil e, por isso mesmo, pouco divulgado. Tinha uma personalidade desconcertante, sua vida também constitui uma obra de arte, cheia de passagens curiosas de acontecimentos inusitados, que amava Wolfgang Amadeus Mozart e ouvia suas músicas de joelhos, na mais completa ascese mística, não permitindo que os mais íntimos se acercassem dele nessas ocasiões. Certa vez, telegrafou para Adolph Hitler protestando em nome de Mozart contra o bombardeio em Salzburgo. Sua fixação contemplativa por janelas foi assunto do cronista Rubem Braga. Em 1910, presenciou a passagem do cometa Halley. Sete anos depois, fugiu do internato para assistir ao brilho de outro cometa: Nijinski, o bailarino. Em ambos os casos sentiu-se tocado pela poesia. “Na...