Pular para o conteúdo principal

Lamentações do tártaro I


 










Estou imerso na memória do rio
na pele do seu corpo
que floresce e se conjuga.
Estou imerso
como o peixe na pupila
crística do desejo,
da espera: estancar o sofrimento
da resina do cansaço
em busca de solução à existência
semelhante ao animal do subsolo.
O tempo redescoberto do rio
na memória da pele do corpo.
Aqui, as pedras nem produzem seus limos
somente pequenos vasos de cal.



Ouço a fome das pedras
do fundo do rio o bojo da vida:
preciso do elemento água
para me consumir a boca
de rachaduras.
Ouço vagar, meu vago vagar
sou vago mas desejo um novo dia.
Aqui, a fome e a sede
estancaram o manancial da vida,
a subcondição persiste como essência.
Então, o amor e a solidariedade
não me justificam
e o peso da carga imensa imerso,
revela-se concepção,
como consequência de um plano nefasto e vil,
multipliquem-se os lagartos
e se infiltram,
os rastejantes apenas andam sem direção.



Apesar do rio concreto, paira dentro
o espírito de aventura misteriosa e enigmática
ao desconhecido,
o rio sobrepõe a mim
além da vida.








Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PAU

pau-brasil em foto de Felipe Coelho Minha gente, não é de hoje que o dinheiro chama-se Pau, no Brasil. Você pergunta um preço e logo dizem dez paus. Cento e vinte mil paus. Dois milhões de paus! Estaríamos assim, senhor ministro, facilitando a dificuldade de que a nova moeda vai trazer. Nosso dinheiro sempre se traduziu em paus e, então, não custa nada oficializar o Pau. Nos cheques também: cento e oitenta e cinco mil e duzentos paus. Evidente que as mulheres vão logo reclamar desta solução machista (na opinião delas). Calma, meninas, falta o centavo. Poderíamos chamar o centavo de Seio. Você poderia fazer uma compra e fazer o cheque: duzentos e quarenta paus e sessenta e nove seios. Esta imagem povoa a imaginação erótica-maliciosa, não acha? Sessenta e nove seios bem redondinhos, você, meu chapa, não vê a hora de encher a mão! Isto tudo facilitaria muito a vida dos futuros ministros da economia quando daqui a alguns anos, inevitavelmente, terão que cortar dois zeros (podemos d...

Trechos de Lavoura Arcaica

Raduan Nassar no relançamento do livro em 2005 Imagem: revista Usina             “Na modorra das tardes vadias da fazenda, era num sítio, lá no bosque, que eu escapava aos olhos apreensivos da família. Amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma, vergada ao peso de um botão vermelho. Não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor velando em silêncio e cheios de paciência o meu sono adolescente? Que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda?” (...)             “De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo...

Identidade narrativa e concepções

  (Fragmentos) A performatividade pode ser relacionada à construção de identidade narrativa do filósofo francês Paul Ricoeur, pois também é manifestada através e em um espaço de tempo. E justamente no tempo e no espaço - no caso de  Margarida , personagem de Dinah Silveira de Queiroz, espaços - que, performaticamente por intermédio de seus atos, a identidade da protagonista se desvela e se apresenta. Conforme apontado anteriormente, nas conclusões de  Tempo e narrativa  o autor já traz a afirmação de que a identidade narrativa permite apreender um sujeito em sua constante mudança, pois a mutabilidade não é excluída da coesão de uma vida (Ricouer, 1997). Em  O si-mesmo como um outro , ele preconiza que, apesar das transformações, há algo de permanente: “a ameaça representada para a identidade só será inteiramente conjurada se, como base da semelhança e da continuidade ininterrupta da mudança, se apresentar um princípio de  permanência no tempo ” (Ricouer,...