(Fragmentos)
A
performatividade pode ser relacionada à construção de identidade narrativa do
filósofo francês Paul Ricoeur, pois também é manifestada através e em um espaço
de tempo. E justamente no tempo e no espaço - no caso de Margarida,
personagem de Dinah Silveira de Queiroz, espaços - que, performaticamente por
intermédio de seus atos, a identidade da protagonista se desvela e se
apresenta. Conforme apontado anteriormente, nas conclusões de Tempo e
narrativa o autor já traz a afirmação de que a identidade narrativa permite
apreender um sujeito em sua constante mudança, pois a mutabilidade não é
excluída da coesão de uma vida (Ricouer, 1997). Em O si-mesmo como um
outro, ele preconiza que, apesar das transformações, há algo de permanente:
“a ameaça representada para a identidade
só será inteiramente conjurada se, como base da semelhança e da continuidade
ininterrupta da mudança, se apresentar um princípio de permanência no tempo” (Ricouer,
2014, p. 117, grifo do autor). Ou seja, apesar do constante da mudança, há algo
de permanente e esse algo é indispensável à construção identitária do sujeito.
Além disso, essa proposição do autor permite entender a identidade, ainda que
se tratando de um ‘mesmo’, como inacabada e em elaboração permanente ao longo
de uma vida, ao longo do tempo, pois a problemática “da identidade pessoal só
pode articular-se precisamente na dimensão temporal da existência humana”
(Ricouer, 2014, p. 112, grifo do autor).
Ricoeur
também define como modelo de permanência da pessoa a polaridade entre caráter e
palavra cumprida. A palavra cumprida é a fidelidade à palavra dada; em outras
palavras, “ainda que meu desejo mude,
ainda que eu mude de opinião ou inclinação, [a] ‘manterei’” (Ricouer, 2014,
p. 125); pois, diz o filósofo, a persistência do caráter e a perseverança da
fidelidade à palavra dada são duas coisas em separado. O autor, no entanto,
reconhece que o “cumprimento da promessa” (Ricouer, 2014, p. 125) constitui “um
desafio ao tempo, uma negação da mudança” (Ricouer, 2014, p. 125), mudança essa
que é uma constante no próprio conceito de identidade por ele postulado. Nesse
sentido, Margarida La Rocque oferece um exemplo concreto do
desafio apontado por Ricoeur. Com a passagem do tempo, a personagem não mantém
fidelidade a pelo menos três ‘palavras dadas’ centrais na narrativa: à lealdade
ao marido, pois comete adultério; ao primo Roberval - chefe do navio em que
Margarida viaja -, porque passa a relacionar-se com um dos tripulantes da
embarcação; à Juliana - sua aia desde a infância -, pois Margarida entra com
ela em conflito, dirigindo-lhe acusações injustas. Ainda que, conforme aponta
Ricoeur, “o cumprimento da palavra dada
não precisa ser posto no horizonte do ser-para-a-morte” (Ricouer, 2014, p.
125), mas da ética de uma promessa, possibilitando afirmar que Margarida não é
fiel às suas palavras dadas.
Na
personagem estudada, são identificadas duas instâncias, sendo uma marcada pela
permanência no tempo e outra pelo descumprimento à palavra dada - para
mantermos a nomenclatura de Ricoeur. A primeira diz respeito à continuidade do
interesse de Margarida pelo desconhecido e pelo aventuroso, que se manifesta
desde a sua infância - quando ouvia os romances lidos por Juliana, “de
destemidos cavaleiros de eras passadas” (Queiroz, 1991, p. 16) - até a idade
adulta - quando escolhe o aventureiro Cristiano como marido e quando o usa como
pretexto para embarcar em uma expedição marítima. Diretamente relacionada a
isso, está outra característica contínua de Margarida: a sua personalidade
desafiadora. Essa se apresenta em um primeiro momento no fato de a protagonista
não temer a profecia feita antes do seu nascimento: “tendo nascido sob tão tremenda profecia, e dela sabedora logo em
criança, nem por isso deixei de ser uma rapariga alegre, faceira como poucas”
(Queiroz, 1991, p. 16). Mais adiante, ela ainda afirma: “Não pensava na tremenda profecia de minha tia” (Queiroz, 1991, p.
19). Posteriormente, em pelo menos quatro passagens, há menções diretas a
“desafio”, sendo três delas relacionadas a João Maria, com quem manteve um caso
extraconjugal: quando ele a informa que a tripulação fazia comentários
maliciosos sobre a convivência dos dois e ela o desafia a permanecer em sua
companhia; quando ela assume uma postura desafiadora e provocativa ao lhe
exigir um beijo, pouco antes de serem descobertos por Roberval; quando ela
imagina que João Maria irá justificar-se ao capitão do navio, afirmando ser ela
a única culpada pelo adultério, pois o seduzira e desafiara. Essas constatações
podem, inclusive, indicar que parte do interesse em João Maria foi motivado
justamente pelo caráter desautorizado que o relacionamento dos dois teria, pois
esse não era permitido tanto por ela ser casada, quanto pela proibição de
Roberval de haver no navio algum relacionamento entre seus tripulantes e uma
mulher, qualquer que fosse. A última menção direta a desafio se dá, por fim,
quando Juliana ameaça suicidar-se e Margarida desafia o seu próprio medo - como
a própria afirma -, dizendo à aia: “Que
me importa tua morte, depois do que fizeste?” (Queiroz, 1991, p. 102).
A
segunda instância, por outro lado, é a mudança constante de Margarida -
responsável pelo desenvolvimento de sua identidade ao longo do tempo -, que
implica inclusive, o descumprimento de suas palavras dadas. E o que integra
essas duas instâncias - a continuidade e a mudança - é a dimensão temporal da
narrativa. Tal dimensão é o que possibilita reconhecer uma mesma personagem na
bela jovem por todos admirada no começo do romance e na velha, coberta apenas
por farrapos de peles de animais, confundida com uma bruxa pelos pescadores que
a resgatam ao fim da história. Ricoeur defende a tese de que a personagem tem
sua identidade compreendida por transferência para ela da operação de composição
do enredo antes aplicada à ação narrada; a personagem, digamos, é composta em
enredo [...] na história narrada, com seus caracteres de unidade, articulação
interna e completude, conferidos pela operação de composição do enredo, que a
personagem conserva ao longo de toda a história uma identidade correlativa à da
própria história (Ricouer, 2014, p. 149).
Ao
fim do romance, a identidade da protagonista, mimese da própria história, se
mostra como ambígua, invulgar, incompleta, o que se manifesta na personagem,
por exemplo, em seu destino incerto, e na narrativa, pela presença dos seres e
acontecimentos estranhos que trazem consigo a possibilidade de múltiplas
interpretações. Além disso, há um obscurecimento gradual no romance que é
reflexo direto do desenvolvimento da personagem. Isso é bastante evidente nos
momentos finais quando, em alguns trechos, surgem sentimentos e descrições
mórbidas e repulsivas: “Desejo de nada
ser, desejo de morte. Eu me via no fundo de uma cova, e os vermes brancos,
pretos, cinzentos, ferruginosos, passeavam por meu corpo. Estava num caixão?
Era eu a carne podre nos cochos, que eles devoravam?” (Queiroz, 1991, p.
118). Também é exemplo desse obscurecimento a transformação da jovem frágil
inicial em um indivíduo profundamente hostil - hostilidade, essa, parte do que
pode ser considerado um processo gradativo de animalização da personagem. Em
ensaio sobre a obra em prosa de Dinah, Malcolm Silverman (1991) compara as
ações de Margarida e da lebre Filho: “Ele
[Filho] é a voz da razão e da racionalidade, em oposição ao comportamento
progressivamente bestial de Margarida. Paradoxalmente, Filho se torna mais
humano à medida que ela mais e mais se animaliza” (Silverman, 1991, p. 48).
A animalização da personagem, assim, se dá pela perda da razão, o que se
manifesta tanto pelas alucinações - quando se comunica com os seres da ilha -
quanto pelas acusações injustas dirigidas à Juliana, por exemplo. Ao mesmo
tempo, a conduta adotada por Margarida também indica a progressiva bestialidade
em suas ações, referida por Silverman. Em um primeiro momento, ela corta o
cordão umbilical que a unia ao filho com os próprios dentes. Na parte final do
romance, quando a protagonista se encontra sozinha na ilha, ela passa a
alimentar-se de raízes cruas. Esse tipo de conduta chega ao ápice quando a
protagonista luta com um animal para proteger o túmulo do filho:
Atirei-me então sobre a
fera, cega de ódio, dominada por nova fúria. Exalava sua boca um cheiro de
podridão. Seus pelos cortavam. Uni-me a seu corpo, gritando, gritando, e
rolamos juntas um grande tempo, enquanto um sórdido gozo experimentava eu,
vindo de satisfeita sanha da raiva (Queiroz, 1991, p. 123).
A
luta com a fera, em vez de medo, lhe gera gozo, prazer, o que contradiz a
imagem da mulher como frágil e destituída de coragem. Essa passagem, ainda, se
dá nas últimas páginas do romance, pouco antes de Margarida ser encontrada
pelos pescadores. Margarida recupera sua condição humana, é possível afirmar,
quando se põe em contato com outras pessoas, primeiramente com aqueles que a
resgatam da ilha e, posteriormente, e principalmente, com o padre a quem narra
sua história. Ou mais do que isso: ela, sendo mulher, reitera a sua humanidade
ao pôr em narrativa a própria vida. Ela não mais é o outro, o desvio da norma,
o não universal, conforme o explicita Simone de Beauvoir (2016a). Ela é
sujeito, humana. Essa constatação também pode ser relacionada ao postulado por
Ricoeur em Tempo e narrativa: o tempo se torna humano quando é
posto em narração.
Referências:
BEAUVOIR,
Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Nova Fronteira,
2016a.
BUTLER,
Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
QUEIROZ,
Dinah Silveira de. Margarida La Rocque: a ilha dos demônios. Rio de
Janeiro: Record, 1991.
RICOEUR,
Paul. O si-mesmo como um outro. São Paulo: WMF Martins Fontes,
2014.
RICOEUR,
Paul. Tempo e narrativa (tomo 3). Campinas: Papirus, 1997.
SILVERMAN,
Malcolm. “A diversidade da prosa de Dinah Silveira de Queiroz”. In:
SILVERMAN, Malcolm. Moderna ficção brasileira 2: ensaios. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1981. p. 28-61.

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