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Escrita que superou barreiras de gênero

 

(Fragmentos)

Uma figura singular e multifacetada na literatura brasileira do século XX. São as características de Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982) que abrange romances históricos, contos, crônicas, literatura infantojuvenil e até ficção científica. Pela versatilidade, consolidou-a como uma das escritoras mais lidas de seu tempo, sendo a segunda mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1980.

Uma análise crítica moderna destaca o protagonismo feminino e identidade em sua obra. Em "Margarida La Rocque: a ilha dos demônios" (1949), por exemplo, a protagonista é analisada como uma mulher em busca de novos caminhos e autonomia em um ambiente hostil. Suas personagens não são apenas decorativas, mas ativas e complexas. A partir disso, propõe-se uma leitura pela perspectiva da teoria e da crítica feminista e, visando mostrar como se dá a construção da identidade dessa personagem em desacordo com os estereótipos da mulher na literatura, foi utilizado igualmente o conceito de identidade narrativa, de Paul Ricoeur, a questão da permanência no tempo e uma série de questionamentos acerca do que seria uma identidade feminina, problemas de gênero (feminismo e subversão de identidade) no conceito de performatividade de gênero e a problemática da continuidade de Judith Butler.

Apesar de pouco conhecida e estudada atualmente, teve uma carreira literária com mais de 40 anos, durante a qual produziu uma vasta e diversificada obra. Em seu segundo romance, Margarida La Rocque: a ilha dos demônios (1949), a protagonista - homônima ao livro - narra a um padre a sua trajetória, desde o nascimento precedido de uma trágica profecia até o período em que foi abandonada em uma ilha habitada somente por animais e seres estranhos - a lebre falante Filho; a Dama Verde, ser com forma de mulher, mas sem face e revestido de musgos; o Cabeleira, um espectro sem corpo. A narrativa se passa na França do século XVI e foi criada pela autora a partir de uma passagem da Cosmografia universal, do padre André Thevet (1575). As narrativas de Dinah, em geral, são centradas em personagens femininas e, em Margarida, essa personagem se mostra uma mulher que busca novos caminhos para si. Margarida não se resigna em um casamento sem amor, não se restringe ao ambiente doméstico, não exerce o papel da heroína à espera do herói. Assim sendo, entendemos que o romance permite uma leitura pela perspectiva da teoria e da crítica feminista, no que diz respeito à forma como é apresentada a personagem Margarida. Unida a esse aparato teórico e crítico, será utilizada a concepção de identidade narrativa postulada pelo filósofo francês Paul Ricoeur (1997; 2014). Em sua obra, o autor não abordou questões relacionadas aos estudos feministas. Ainda assim, seu conceito de identidade narrativa se mostra produtivo para o estudo da personagem em questão, pois, ao examiná-la à luz de tal conceito, é possível entender como ela se compõe identitariamente por meio de sua narrativa e de suas ações, e o que se revela com essa composição.

A noção de identidade narrativa surgiu ao final do terceiro volume da obra Tempo e narrativa, de Paul Ricoeur, e se desenvolveu em O si-mesmo como um outro. O filósofo inicia as conclusões de Tempo e narrativa apresentando a hipótese de considerar a narrativa como o guardião do tempo, na medida em que só haveria tempo pensado quando narrado” (Ricoeur 1997, p. 417, grifo do autor). A partir dessa suposição, é proposta uma releitura da aporética do tempo, da qual surge a proposição ricoeuriana de um tempo presente no âmbito da narrativa, com começo, meio e fim bastante definidos e estabelecidos pelo sujeito do discurso.

Para o autor, existe a possibilidade de identificar, por meio de uma narrativa, o “quem” - a identidade - de uma ação ou mesmo de uma vida. E, na ausência de um sujeito da narração, o problema da identidade pessoal estaria fadado a uma antinomia irresolúvel: se colocaria, de um lado, “um sujeito idêntico a si mesmo na diversidade de seus estados” (Ricouer 1997, p. 424), ou, por outro lado, se consideraria “que esse sujeito idêntico é somente uma ilusão substancialista, cuja eliminação só revela um puro diverso de cognições, de emoções e de volições” (Ricoeur, 1997, p. 424). Esse dilema desaparece, na opinião de Ricouer, se substituirmos a identidade compreendida no sentido de um mesmo (idem) pela identidade compreendida no sentido de um si mesmo (ipse); a diferença entre idem e ipse não é senão a diferença entre uma identidade substancial ou formal e a identidade narrativa (p. 424-425).

A conexão entre ipseidade e identidade narrativa, para Ricoeur, aponta que “o si do conhecimento de si não é o eu egoísta e narcísico cuja hipocrisia - e ingenuidade -, bem como o caráter de superestrutura ideológica e o arcaísmo infantil e neurótico às hermenêuticas da suspeita denunciaram” (Ricoeur 1997 p. 425). Esse si do conhecimento de si seria fruto de uma vida examinada que, de maneira geral, é uma vida depurada, explicada por meio das narrativas históricas e ficcionais presentes em nossa cultura e que levam a ipseidade - o “si” instruído pela cultura - a aplicá-las a si mesmo (Ricoeur, 1997). Levando essas afirmações ao romance estudado, podemos afirmar que Margarida, ao fazer a narração de sua vida ao padre, busca a compreensão não só dos fatos ocorridos, mas de si própria, ao dar inteligibilidade à sua história por meio de uma narrativa. Pois, ao fazer o exame de sua vida, conforme Ricoeur, “um sujeito reconhece-se na história que conta a si mesmo sobre si mesmo” (Ricoeur, 1997, p. 426), afirmação que é desenvolvida em O si-mesmo como um outro, quando o autor declara que “a compreensão de si é uma interpretação; a interpretação de si, por sua vez, encontra na narrativa, entre outros signos e símbolos, mediação privilegiada” (Ricoeur, 2014, p. 112).

É também nessa obra que Ricoeur apresenta o que pode ser relacionado, no romance em questão, a uma tentativa de a protagonista compreender não só a si - reiteramos -, mas os acontecimentos que se deram em sua trajetória, pois, na reflexão do filósofo: “É precisamente em razão do caráter evasivo da vida real que temos necessidade do socorro da ficção para organizá-la retrospectivamente após os acontecimentos” (Ricoeur 2014, p. 173). Aqui, ainda que não estejamos tratando de ‘vida real’, o que se apresenta é uma personagem que busca, valendo-se do recurso da narração, ordenar os acontecimentos inusitados de sua vida ao contar sua história para outrem. Logo na primeira página do romance, Margarida declara: “Começarei, Padre, bem do começo, para que certas coisas possam ser entendidas. Nasci sob um mau fado” (Queiroz 1991, p. 15). Esse mau fado é a profecia, anunciada por uma tia, de que Margarida iria em vida ao inferno. Uma profecia retomada ao fim da narrativa, quando ela relata a viagem após seu resgate da ilha.

A questão da permanência no tempo, contudo, é um ponto sensível nas discussões sobre identidade. Judith Butler (2017) em Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade, traz uma série de questionamentos acerca do que seria uma identidade feminina que contestam justamente a problemática da continuidade:

Enquanto a indagação filosófica quase sempre centra a questão do que constitui a “identidade pessoal” nas características internas da pessoa, naquilo que estabeleceria sua continuidade ou autoidentidade no decorrer do tempo, a questão aqui seria: em que medida as práticas reguladoras de formação e divisão do gênero constituem a identidade, a coerência interna do sujeito, e, a rigor, o status autoidêntico da pessoa? Em que medida é a “identidade” um ideal normativo, ao invés de uma característica descritiva da experiência? E como as práticas reguladoras governam o gênero e também governam as noções culturalmente inteligíveis de identidade? Em outras palavras, a “coerência” e a “continuidade” da “pessoa” não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa, mas, ao contrário, normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas. Em sendo a “identidade” assegurada por conceitos estabilizadores de sexo, gênero e sexualidade, a própria noção de “pessoa” se veria questionada pela emergência cultural daqueles seres cujo gênero é “incoerente” ou “descontínuo”, os quais parecem ser pessoas, mas não se conformar às normas de gênero da inteligibilidade cultural pelas quais as pessoas são definidas. Gêneros “inteligíveis” são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo (Butler, 2017, p. 43, grifo da autora).

Ainda que Butler entenda a continuidade como parte de práticas reguladoras do gênero - do que não discordamos -, o que assinalamos é que, nesse ponto especificamente, torna-se possível conciliar o posicionamento da autora com o de Ricoeur. Isso porque o filósofo francês não nega as mudanças ao longo do tempo - que podem ser entendidas como as incoerências apontadas por Butler; e tanto as mudanças como as incoerências surgem no desenvolvimento da personagem Margarida. Além disso, o próprio conceito de performatividade, essencial na obra de Butler, se refere a atos construídos ao longo de uma temporalidade:

O gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituído num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos. [...] Essa formulação tira a concepção do gênero do solo de um modelo substancial da identidade, deslocando-a para um outro que requer concebê-lo como uma temporalidade social constituída. Significativamente, se o gênero é instituído mediante atos internamente descontínuos, então a aparência de substância é precisamente isso, uma identidade construída, uma realização performativa em que a plateia social mundana, incluindo os próprios atores, passa a acreditar, exercendo-a sob a forma de uma crença (Butler, 2017, p. 242-243, grifos da autora).

 O tornar-se mulher, assim, é um processo contínuo que se dá ao longo do tempo e, também, uma prática discursiva - tal qual a construção de identidade proposta por Ricoeur. Essa prática - aberta a intervenções e ressignificações, no pensamento de Judith Butler -, em Margarida La Rocque, se apresenta no desenvolvimento identitário de uma personagem que vai na contramão de muitos aspectos que fazem parte do que a filósofa chama de ‘estrutura reguladora altamente rígida’. Margarida apresenta uma identidade em que essas características estão presentes - pois carrega, simultaneamente, traços que rompem e traços que mantêm o perfil tradicional da personagem feminina. Esses aspectos, ainda, podem ser entendidos, do ponto de vista ricoeuriano, como a conciliação da continuidade e da descontinuidade. Pois, assim como há tal conciliação entre a mudança e a permanência - indício de uma identidade em desenvolvimento e elaboração permanentes -, também há a conciliação - não no sentido de aceitação, mas de duplicidade, de aglutinação - entre uma mulher autônoma e uma mulher ainda subordinada. E isso, em última análise, é sintoma do romance pertencer a uma fase de transição em que estão surgindo, também na literatura, os questionamentos a respeito da situação feminina. Todas essas conciliações se tornam possíveis no momento em que Margarida coloca sua vida na dimensão temporal de uma narrativa e, com isso, se mostra como uma personagem insubmissa, ambígua, desafiadora. E é ainda mais significativo que tais características sejam expostas por uma narradora mulher que detém o controle dos acontecimentos e é a responsável única por dar voz à sua identidade narrativa.

A paulista Dinah Silveira de Queiroz superou barreiras de gênero, unindo a pesquisa histórica ao entretenimento de qualidade. Após um período de menor visibilidade pela crítica formalista, estudos recentes têm buscado o redescobrimento de sua obra, em razão da capacidade de recriar o passado brasileiro e dar agência às personagens femininas a torna uma autora relevante e cuja obra merece constante revisitação e análise enfatizando a importância de sua escrita e sua contribuição para a literatura brasileira.

Referências:

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. Margarida La Rocque: a ilha dos demônios. Rio de Janeiro: Record, 1991.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa (tomo 3). Campinas: Papirus, 1997.

THEVET, André. A cosmografia universal. Fundação Darcy Ribeiro. Coleção Franceses no Brasil, Editora Batel, 2009. La cosmographie universelle d'André Thevet, cosmographe du roy, llustrée de diverses figures des choses plus remarquables veues par l'auteur, et incogneuës de noz anciens et modernes. Paris: Guillaume Chandiere, 1575.


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