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Gaia Ciência

À Alvina, minha mãe-terra Súbito frêmito na haste frágil, brota a folha. É a brisa que consente a gaia ciência, a mesma suave brisa que refresca a fronte da nova vida.

Mandala da Rosa Via-Láctea VIII a XV

VIII Das espumas do mar, Afrodite na forma de uma rosa branca ornamenta o escudo de Aquiles e os capacetes de Heitor e Enéas. IX Rosa branca, emblema da perfeição, segredo guardado que fecha sobre seu coração. X Mas para que serve a rosa? Se a contemplo inerte. Se a toco no mágico fulgor das pétalas. De que serve a rosa se desnaturada a possuo? XI Em volta da roda do umbigo circula contínua garça da graça, uma rosa que levamos no coração, comovida, murcha incomunicável sob muros de sombras. XII Ela é cinza das areias do deserto imenso, pode ser noite, pode ser pelo ar e pela água anda: rente ao chão verde macio e flores apenas que voam da voz do vento. XIII Como sonho de um pássaro, movem-se apenas pétalas veludosas, uma borbulha de flor de nata que vemos desabrochar. XIV A lua que envolve os noivos de ...

Cultura da Estética

Tem que eliminar algum hormônio que desenvolve os seus dotes físicos Não se deve julgar nada da mulher ou do homem pelas suas imperfeições físicas e quem, na última década do milênio, com um pouco de discernimento ficou perplexo com o desfile de frivolidades pedindo 15 minutos de fama, como dizia Andy Warhol não entendeu bem o espírito da coisa. Coisa no caso sendo a latente cultura do corpo jovem e belo, que predomina no Brasil. A estética do consumo que pulveriza o imaginário do cidadão comum, representada aqui pela propaganda, mostra um mundo fora da realidade brasileira e artificial, a automatização da vida e a felicidade artificial na americanização do mundo. É só olhar os anúncios com garotas e garotos jovens belos, atléticos e sadios. Consequentemente, o jovem da periferia perdeu sua gíria e criatividade, usando onomatopéias das histórias em quadrinhos. Parecem códigos quase indecifráveis. Alguns jovens não aperfeiçoam os estud...

Retratos da Era do Papel

Andanças e relatos de um contador de histórias DO JEITO QUE VI Montezuma Cruz Relatos Jornalísticos Editora Anexo Soluções Integradas Lima & Santiago Comércio e Serviços Gráficos Ltda. 144 Páginas 2014 Brasília – Distrito Federal             Os grandes jornalistas caracterizam-se por um amor incondicional pelo papel. Um deles, Montezuma Cruz, como um legítimo homem da Era do Papel, que a vida toda se cercou de publicações impressas, evoca cenas precisas e preciosas dos dias que as redações tinham laudas, “o frenesi romântico e barulhento das máquinas de escrever, e em que os jornalistas faziam dos bares uma extensão dos jornais e das revistas em que trabalhavam.” - conforme declaração do jornalista Paulo Nogueira.             Os relatos de Do Jeito que Vi , de Montezuma ...

Roda ao Redor IV

Auto-Retrato de Ismael Nery O mundo tinha valores sólidos que custavam a mudar             O sentimento de solidão era menor encerrado atrás de quatro paredes, portas trancadas e corredores vazios. Os ruídos exteriores eram normais, mas traziam medo. As pessoas não podiam se olhar, cara a cara, enfrentar-se sem receios, a língua seca e o coração disparado.             Passa os olhos pelo jornal virtual e as notícias sintetizadas da internet, fica estarrecido com as estatísticas de mortos. Todos os dias, com um prazer necrófilo, examina as causas de familiares, amigos e colegas de profissão. Morrer do coração. Infartos, derrames, todo tipo de complicações cardiológicas aparecem na causa mortis. Ou seriam mentiras? Dissimulações. E por que gente com vinte anos ou menos ainda, tem as artérias do coração entupidas? Nem dá para a...

Um Clarão nos Olhos de Ressaca

            Na noite de autógrafos, em que a muito custo tento equilibrar todos os motivos de agir e de cruzar os braços e pernas, de insistir e agitar-me, fico quieto, neutro e entrelaçado no bate-papo digestivo - foi então que aconteceu.             Eu conversava ansioso e com desejo - no fundo do coração a esperança humilde como ave doméstica - eu me balançava como uma onda que vem e vai, e já teve noites de tormenta e madrugadas de seda, e dias vividos com todos os nervos e com toda a alma, e charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência dos pobres - como um homem que quer se integrar a alguma cidade, um estrangeiro, e me sentia naquele diálogo como aquele que se vê nos cartões-postais, de longe, dobrando uma esquina – trafegava, portanto, extremamente sem importância, mas tendo em mim a força da renovação e na linha de um novo horizon...

Roda ao Redor III

A Família do Pintor de Giorgio de Chirico Conta as voltas da hélice do ventilador, contempla o teto e ouve os barulhos da rua              Vai reconhecendo sua casa. Na verdade, conhecendo, descobrindo. As gavetas dos armários, de cedro, perfumadas. Os papéis acumulados em escrivaninhas, apesar da recomendação dela de jogar logo fora. Há quantos anos não tiro nada das gavetas? Só coloco, coloco, coloco e coloco. A memória de minha vida.             Que vida? Esta memória nunca consultada que vai ser atirada ao lixo, assim que morrer. Que é nada na ordem das coisas. Papéis, fotos, contas e anotações. Que importância têm? Documentos do quê? De um homem comum. Ora, a história jamais se interessou pelo homem comum. E por que havia de?             Lembranças. A ternu...