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Alucinado estado de guerra

Nenhuma história deve ter comovido tanto os leitores brasileiros, nos últimos anos, quanto à da jovem dependente química Heleninha, relatada de forma realista e comovente no romance Terror e Êxtase , pelo escritor, cronista e jornalista José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira. Assim como outras histórias igualmente trágicas – a da jovem alemã Christiane F e da brasileira Sandra Mara Hezer. – a de Heleninha, uma adolescente rica da sociedade carioca, de apenas 17 anos, moradora de Ipanema, choca, horroriza e revolta por tratar de alguém infelizmente muito próxima de nós. Helena é brasileira. Helena pode ser nossa irmã. Ou nossa filha. Ela segue ao lado do temido bandido 1001, ladrão e assassino criado na Baixada Fluminense, que aterroriza a zona sul do Rio de Janeiro e só faz aumentar a paixão que Heleninha sente por sua imagem de líder autoritário, frio, calculista e violento. Terror e Êxtase é um novelo de relacionamentos, de comportamentos, em quilos de cocaína, ...

Sempre cronista de si mesmo

Oliveira: Momentos de poesia e sofrimento Em dezembro de 1985, o cronista, romancista e jornalista José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira, como era conhecido, resolveu voltar ao Espírito Santo, terra onde nasceu. Lá, ele pretendia realizar seu projeto mais ambicioso: escrever o livro Meditação da Terra Natal, sobre essa volta às origens. Desde 1984, quando fez uma consulta médica em Paris, ele sabia que restava uma curta sobrevida. Uma pancreatite aguda impedia a realização do acalentado projeto. Carlinhos morreu em 13 de abril de 1986, no Hospital da Associação dos Funcionários Públicos do Espírito Santo. Estava com 51 anos, dos quais 34 vividos no Rio de Janeiro, para onde veio aos 18. No Rio, consolidou rapidamente uma brilhante carreira jornalística e literária. Foi através da crônica que se tornou mais conhecido. Publicou-as regularmente no Jornal do Brasil por 22 anos, de 1961 a 1983. Era um mestre no gênero. Atribuía o seu êxito ao fato de se considerar “uma...

Paternalismo cultural

Ilustração de F. Bianco A questão da formação das preferências é ignorada pela maior parte dos órgãos de cultura e da ciência política. Uma justificativa do pensamento liberal recusando a crítica da produção das preferências. Caso não aceitemos este pensamento, estamos caindo no paternalismo, onde a autonomia do agente é ameaçada pela ideia de um observador externo em condições de identificar suas “verdadeiras” preferências, mesmo contra sua vontade expressa. Um argumento que a posição antipaternalista está correta, em princípio, mas desloca a discussão. Acredito que o principal obstáculo à formação autônoma de preferências não seja o paternalismo, mas a dominação. Existem produtores culturais e grupos que possuem dificuldades de formular e expressar autonomamente suas preferências quando estão sujeitos à relação de dominação. A falta de autonomia no meio cultural predomina no Brasil e revela instituições que não cumprem a sua missão de formação, de difusão, de edu...

História em cacos

Memória de René Magritte - 1948 Acabo de examinar quatro livros dos gêneros relatos históricos, didáticos e de memória, com atenção e empenho. São bem diversos do Joaquim Silva do fim dos anos 30. Os volumes são bonitos, com muitas gravuras e bela diagramação, em esforços gráficos de certas editoras. Procura-se avivar a linguagem de modo a despertar o aluno ou o pesquisador. A melhor qualidade dessa produção deve ser creditada aos cursos de História das Faculdades de Filosofia: se eles não deram ainda quanto se espera, no preparo de gente qualificada para desenvolver os estudos no país, com metodologia severa e pesquisa intensa, pelos menos elevaram consideravelmente o nível do ensino médio, chamado antes de segundo grau. Antes de apontar faltas ou vícios destes livros quanto ao aspecto didático, impõe-se fazer o seu elogio. É difícil realizar trabalho do gênero. Autor culto na especialidade pode escrever de modo inadequado, pelo uso de técnica imprópria, com expos...