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Fotógrafo existencialista

  (Quarta parte) Suas impressões revelam angústia e falta de sentido na vida O Brasil teve também um time considerável de bons cronistas e entre eles se inclui um que vinha do Espírito Santo. José Carlos Oliveira, o “Carlinhos Oliveira”, era o nome do conterrâneo e do companheiro de crônicas, as quais faziam sucesso – com razão – sobretudo nos anos 60. Existe algumas semelhanças no estilo de Carlinhos Oliveira e de Rubem Braga, dois cronistas capixabas, afeitos que eram à melancolia, mas das crônicas braguianas ainda emerge uma suave aceitação da vida e das coisas como elas são, ao passo que nas crônicas de Carlinhos Oliveira – sobretudo as que foram publicadas em “ A revolução das bonecas ” ( 1967 ) –  a angústia, a amargura, o vazio e o nada costumam dar o tom. Nota-se a conformação e até a alegria nas suas crônicas, mas apenas depois de um denso e doloroso mergulho existencial. Deve-se lembrar, contudo, que Carlinhos negava ser o personagem das suas crônicas – não era...

Irrequieto, ferino e irreverente

  (Terceira Parte) José Carlos Oliveira (Carlinhos Oliveira, sem o “de” que ele detestava) foi o cronista mais influente do Brasil durante 23 anos. Entre 1961 e 1984, quatro vezes por semana, a sua coluna no “ Jornal do Brasil ” era leitura obrigatória. Eram tempos em que ler jornais e revistas eram momentos inebriantes, cultos, inesquecíveis. Nascido em Vitória (ES), Carlinhos era um daqueles cariocas da gema nascidos fora do Rio. O cronista chegou ao Rio em meados dos anos 50 e logo começou a se destacar na revista ‘ Manchete ’. Trabalhou também no ‘ Jornal do Brasi l', no ‘Pasquim ’ e no ‘ Zero Hora ’ de Porto Alegre, entre outros. Como escritor, escreveu cerca de vinte livros, entre romances e crônicas. Seu romance ‘ Terror e Êxtase ’ foi adaptado para o cinema em 1979, dirigido por Antônio Calmon. Com 1,58 metro (apenas dois dedos maior que Napoleão Bonaparte, como se auto definia) e 53 quilos de jornalismo e boemia, era frequentador dos melhores botecos da Zona Sul do R...

Vida de boêmio

  (Segunda Parte)   Na modesta escala nacional, e até municipal, também tivemos o nosso Céline ou o nosso Henry Miller na pessoa de José Carlos Oliveira ( Diário selvagem: o Brasil na mira de um escritor atrevido e inconformista , e O homem na varanda do Antonio’s: crônicas da boemia carioca nos agitados anos 60/70 . Organizado Jason Tércio, 2004 e 2005). Estamos longe, bem entendido, de Henri Murger, num livro que, como declara o organizador, “comporta dois níveis de leitura: é a perambulação de um homem, desde a juventude à maturidade, pelos bares, restaurantes, boates e festas mais interessantes da Zona Sul do Rio de Janeiro, envolvendo-se em situações alegres, dramáticas, poéticas, patéticas. É também a história da vida boêmia num período de grande efervescência cultural no país, especificamente o cotidiano da boemia artística e intelectual, narrado pelo seu mais qualificado porta-voz, José Carlos (Carlinhos) Oliveira”. O “ Diário selvagem ” situa-se, ao mesmo tempo...

Não tem como traduzir

  (Primeira Parte) “Surrealista por temperamento, anarquista por indisciplina de berço, boêmio por amor à vagabundagem, agregado à elite pensante por acaso ”, era como se definia. Com personalidade complexa, Carlinhos Oliveira incorporou diferentes papéis ao longo da vida: escritor maldito, criança abandonada, bon vivant mulherengo, intelectual perspicaz e independente. Mas para um de seus melhores amigos, César Thedim, ele era simplesmente “ um doido em forma de canção ”. Apesar de ter sido um boêmio militante a vida toda, protagonista de porres e escândalos nos melhores botecos de Copacabana ao Leblon, seus temas iam muito além da fauna noturna. Em textos de alta voltagem literária, comentava todos os assuntos: religião, futebol, sexo, política, contracultura, drogas, boemia, moda, lazer, imprensa, carnaval, transformações urbanas, música popular, crime, neuroses, conflitos sociais, artes, televisão, ecologia. Sempre assumindo posições, expondo-se ao julgamento público, o qu...

Redemoinho trágico e perturbador na casa

  Se a arte cria novos mundos, mas o eu precisa morrer um pouco para dar lugar a universos não seus, inventados. A criação poética presente em toda arte também implica numa representação da morte Há um outro aspecto evidente: além de significar uma vivência da morte, arte seria uma superação da morte - e sobre este tema nos deteremos um pouco mais adiante. Quanto à sua relação com a loucura, a criação poética, mais talvez do que qualquer outra experiência humana, resume as duas grandes experiências do morrer: há nela um gesto de amor apaixonado e radical, ao mesmo tempo que um mergulho na loucura. Assim, refletirei sobre a criação da escrita ficcional como ato de loucura e de transferência que instiga. A relação estabelecida entre a vida e a escrita sempre foi muito discutida no meio literário. Em alguns casos, acreditava-se ser apenas o texto o objeto de pesquisa importante para o desenvolvimento da crítica. Em outros, biografias eram analisadas, fazendo da memória a principal m...

A vida nua, crua e sem dicotomia

    Uma literatura que não usa perfume, nem traje de gala. Em José Louzeiro, as coisas aparecem com o odor que têm em nossa realidade social, envoltas por farrapos de favelados ou cidadãos de segunda classe, por disfarces, ternos com cheiro de delegacia ou, ainda, por uniformes a serviço de objetivos escusos. Neste autor, que ousa levar a reportagem às últimas consequências, a busca da objetividade e a tentativa de resgatar do esquecimento o drama humano causador e decorrente da violência deslocam para um segundo plano as preocupações de ordem formal. As frases esmeradas ou as expressões exatas cedem lugar para o “jeito de falar” do povo, para o palavrão cru, sem que isso deixe de prender o leitor da primeira à última linha de qualquer de suas obras. Livros como Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia ou Em Carne Viva , não são simples retratos corajosos de um dos períodos mais tristes de nossa história. São dedos pousados sobre uma de nossas principais feridas sociais: a vi...

Geografia poética da fome

  Foto de Gilmar de Souza – agência RBS   Uma poesia de caráter que nasceu madura. Não na idade que se pressente bem jovem até no desalinho das edições mal tratadas, na falta de sequência dos poemas, porém no tema, na maneira de apresentá-los, no calor de certas afirmações. Não há mais lugar para o poema enluarado. E se algum ainda persiste por aí, pode-se dizer de antemão que é um poeta velho, nem que cronologicamente tenha 20 anos. Impressão marcante nos deixa os poemas de Lindolf Bell. Sua poesia tem carne. Grita. Blasfema. Vive, portanto, e de uma vida que não se compraz no usufruir a hora que passa. Nem no dizer de banalidades líricas. Os jovens das gerações 60 e 70 demonstravam desde logo a força de sua poesia no uso que faziam das palavras. Lindolf Bell, por exemplo, tem um vocabulário que, por vezes, é dele só. A parte não aprende de pronto a sua mensagem. Mas sente o calor que suas palavras querem transmitir. É uma poesia de alta-voltagem. Ora, poesia se faz com...