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Testemunho do nosso tempo

 

A marca da crônica em branco

A crônica tem, no Brasil, uma tradição respeitável que vem do Portugal de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e esplende entre nós com nomes como Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, José Carlos Oliveira, Paulo Mendes Campos e, mais recentemente, Luís Fernando Veríssimo, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Mas o que é a crônica? “Até se poderia dizer que em vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu”, ensina o crítico Antonio Candido em “A vida ao rés-do-chão”. Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma. E mais: em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas.

Lourenço Diaféria, outro cronista clássico, faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que não vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse gênero literário essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo pátrio, um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito mais limitações do que o livre-pensar da crônica. Diaféria é da mesma espécie de Rubem Braga, que não precisou voar para outras paragens e fez da crônica seu ganha-pão e sua transcendência. Mas, ironia total, ele foi marcado exatamente por uma crônica em branco, que não existiu, mas foi publicada.

Em setembro de 1977, os militares não gostaram da crônica “Herói. Morto. Nós”, pois tratava de uma comparação entre o Duque de Caxias e um sargento que havia pulado num poço de ariranhas para salvar um garoto de catorze anos. Aos olhos do cronista, o verdadeiro herói era o sargento, não o homem da estátua, que segurava uma espada em cima de um cavalo. “O povo urina nos heróis de pedestal”, escreveu na crônica “Herói. Morto. Nós”. Lourenço Diaféria ficou cinco dias preso e depois, ao longo do processo, sofreria uma condenação a oito meses de prisão, mas essa decisão foi revogada em 1980, quando ele foi inocentado.

A história mostra que a direção do jornal não agiu de forma digna, mas o autor, felizmente, foi absolvido pelo Supremo. Mais tarde, Diaféria lembraria que o episódio foi um oceano que passou em sua vida. “Prejudicou-me em algumas coisas e ajudou-me em outras”, disse. “Eu me senti melhor porque a pior coisa de quem tem uma coluna de jornal é ter ímpetos e se auto-censurar.”

Diaféria não tomava parte em nenhum grupo político que pudesse ameaçar o poder constituído. O cronista tinha, de fato, as suas insatisfações sociais, mas, na maior parte dos casos, ele as expunha de forma mais sutil. Quem lê os seus livros de crônicas encontra apenas raramente textos tão combativos como os que levaram à sua prisão. No entanto, eles existem, destacando-se a crônica “Adivinhas. Adivinha? Adivinha!”, de O circo dos cavalões (Summus, 1978).

Entre as adivinhas que ele se propõe a perguntar e responder estão:

O que é que é: nasce e corre e nunca pára?

– Água do rio.

– Errado. É a inflação.

O que é que é: desce gritando e sobe chorando?

– Balde cheio de água.

– Errado. É juro bancário.

O que é que é: bate em mim, bate em vós, bate na saia e bate no cós?

– A polícia.

– Errado. É a peneira. 

No final da crônica, há uma crítica aberta à atividade de censor, a qual jornalistas e escritores como ele estavam sujeitos durante a ditadura:

O que é que é:

– Tem caneta e não tem perna, tem pena e nunca perdoa, é rábula e não tem rabo, tem rabo e nele se assenta; lê tudo, mas não escreve, corrige e nunca se emenda, quando corta nunca risca, quando risca nunca corta, é burro que nem uma porta; ganha para desfazer o que feito já está, palavrinha ou palavrão, furta pedaços de ideias, não é preso como ladrão. O que é?

– Censor.

– Puxa, ate que enfim acertou uma.

É interessante que uma crônica como essa não tenha sido o bastante para que as lideranças governamentais da época buscassem punir o seu “ofensor”, e sim aquela outra, que, se bem que fale de forma pouca lisonjeira da estátua do Duque de Caxias, é ainda a exaltação do feito de um militar. Em todo caso, pode até ser que essa crônica tenha influenciado na punição, uma vez que foi publicada pouco antes do texto que provocou a celeuma.

De fato, “Adivinhas. Adivinha? Adivinha!” é de agosto de 1977, enquanto que “Herói. Morto. Nós” é de 1º de setembro de 1977, então pode-se até conjecturar que o cronista já estivesse “visado” de alguma maneira e que a fatídica crônica possa ter sido apenas o estopim.

Multiplicidade de olhares

Lourenço Diaféria, sem dúvida, é um bom exemplo desse jeito brasileiríssimo de fazer crônica. Ela serve para mostrar o outro lado de tudo – dos palanques, das torres, de eclipses, das enchentes, dos barracos, do poder e da majestade. Ela não consta no periódico por condescendência. A crônica é a lágrima, o sorriso, o aceno, a emoção, o berro, que não tem estrutura para se infiltrar como notícia, reportagem, editorial, comentário ou anúncio publicitário no jornal. E, contudo, é um pouco de tudo isso.

O cronista tem um olhar sempre otimista. Consciente de que sua função é prestar atenção ao banal, ele vai costurando retalhos de informações até transformá-los em um relato verossímil, estruturado de acordo com as leis da coerência do texto, as peças ajustadas como num quebra-cabeça. Diaféria vai cumprindo o exercício da crônica como um testemunho do nosso tempo, contando as tragicomédias diárias, fazendo o leitor recuperar seu senso crítico enquanto se diverte, alcançando o que está além da banalidade.

No conjunto das crônicas, por elas passa o talentoso e múltiplo Diaféria, que um dia observa uma cobradora de ônibus ajudar uma mãe a trocar a roupa de seu bebê e, no outro, manda uma carta ao general de plantão avisando que algo cheira mal nos porões da ditadura militar. E, nessa multiplicidade de olhares, o autor torna-se testemunho do nosso tempo e o leitor termina a leitura sentindo-se mais próximo do homem, dos outros homens, enriquecido em sua consciência e emoção.

 


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