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Imprensa e literatura em convergência (1)

  Imprensa e literatura: caminhos intrincados             Jornalismo e literatura podem ser facilmente relacionados, pois ambos têm, em seu cerne, o trabalho com as palavras. No entanto, limitar a relação entre eles a apenas esse aspecto passa-se a ignorar uma série de elementos essenciais para a compreensão do desenvolvimento da imprensa e da própria evolução da literatura. Se, por um lado, a linguagem une essas duas áreas, por outro, a maneira empregada pode definir se estamos frente a um texto literário ou a um texto jornalístico. De modo mais geral, um texto jornalístico costuma ser associado a “uma espécie de testemunho do ‘real’, fixando-o e ao mesmo tempo buscando compreendê-lo” (BULHÕES, 2007, p. 11). Para isso, tende-se a utilizar uma linguagem considerada mais objetiva, um discurso em que haja pouco envolvimento do repórter, ou seja, busca-se um foco mais impessoal, o que, na maioria dos casos, se reflete na falta de espaço para expe...

Metáfora da morte paterna

  (Nona e última parte) Como Diana e Jaques, Clara torna-se uma vítima das metáforas patológicas de Lúcio Cardoso, pois desenvolve um tumor terminal repleto de ramificações. O câncer de Clara funciona como uma metáfora perfeita para a realidade tediosa e desesperadora que consome os personagens do romance, sempre predestinados a vidas perdidas que culminam na morte ou no fracasso. Para Sílvio, a única possibilidade de continuidade mostra-se na extração completa do mal enraizado. Para isso, ele se separa de Diana, deixando-a livre para seguir seus próprios caminhos e para que, assim como ela, ele possa trilhar os seus. É neste momento que o “parricídio” aparece como propiciador para a criação do escritor e, consequentemente, da autoridade do indivíduo, pois só a partir do momento em que Sílvio deixa a cidade de Vila Velha, local onde ocorre o romance, que ele poderá se tornar escritor. Ele enxerga na escrita como uma maneira de se firmar como sujeito, mas só possível quando o pers...

Fracasso perturbador na casa (8)

  (Oitava parte)   Essa parte do livro aproxima-nos mais uma vez da relação que o escritor Lúcio Cardoso estabelece com seu pai. Em uma carta que Joaquim Lúcio Cardoso escreve ao filho, ele diz: “A ti e a teus irmãos, confiam Deus a tarefa do meu amparo na última (sic) etapa da vida” (CARDOSO b, s/d, p. 1). O pai de Lúcio Cardoso, assim como Jaques, um homem que fracassa em todas as suas funções sociais. Note-se como o pai se coloca em um papel que não é o lugar daquele que deve amparar os seus, de levar adiante os valores da sociedade, imprimir em seus filhos a lei da cultura, mas, ao contrário, coloca-se em um papel passivo diante dos filhos, a ponto de querer deles o amparo para sua velhice. Essa característica do pai do escritor reflete na construção de personagens de outras obras, pois assim será o personagem de Maleita , que fracassa em sua tentativa de civilizar uma cidade do sertão mineiro; Rogério Palma, que fracassa na criação do filho Inácio, em O enfeitiçado ; ...

Redemoinho na volta do pai (7)

  Maria Helena (primeira a esquerda) irmã de Lúcio Cardoso (Sétima parte) A paternidade decorrente de uma função social. Livrar-se do pai significa encontrar em si a figura da autoridade e do poder. As disputas pelo poder de Sílvio são travadas, inicialmente, com sua mãe Clara, com Diana, sua esposa, e Chico, seu melhor amigo. Mas o ponto crucial dessa disputa dá-se no retorno de Jaques à família. A volta de Jaques representa mais uma tentativa fracassada de paternidade, pois seu regresso traz mais desordem a casa e instaura em Sílvio o sentimento de rancor, dúvidas ainda maiores e a sensação de invasão de seu ‘eu’ e de seu território, conforme se pode perceber no fragmento abaixo, retirado dos diversos raciocínios do personagem: Quem dera àquele homem o direito de penetrar assim na sua casa, de se apossar de tudo, de se fechar até no próprio quarto de Clara? [...] Tinha a impressão de que fora roubado nalguma coisa. Seria assim em todas as casas, todos os pais agiriam daquele ...

Redemoinho perturbador na casa (6)

  (Sexta parte) A paternidade, uma questão cultural e responsável pela organização da sociedade. Para Freud (1999), a imagem que o filho constrói do pai está relacionada aos poderes excessivos e à desconfiança, a qual está intimamente ligada à admiração que o filho possui pelo pai. Sendo assim, a figura paterna fica no alvo de ódio – uma vez que representa um obstáculo aos anseios de poder e aos desejos sexuais – e de admiração – pois sua ausência causa melancolia e desequilíbrio pessoal. Dessa forma, a ausência da figura paterna como elemento decisivo para a criação do escritor Lúcio Cardoso, pois transfere para seus romances o que chamamos de “escrita da orfandade”, que consiste em uma busca pela própria origem, uma tentativa de recuperar algo que foi perdido no passado. Assim, personagens fortemente marcados pela ausência da autoridade paterna são recorrentes nos romances cardosianos. Não é diferente com o “romance autobiográfico” Dias Perdidos , pois o personagem Sílvio, p...

Redemoinho perturbador na casa (5)

  (Quinta parte) Lúcio Cardoso, assim como Sílvio, também possui um pai ausente que aparece sempre como um vulto, enevoado em histórias de viagens sempre fracassadas. Em biografia não publicada de Walmir Ayala, apresenta o pai do autor de Crônica da casa assassinada como um viajante transformado em personagem do escritor: Seu pai, Joaquim Lúcio Cardoso, era um andarilho, fundador de cidades, com três anos de engenharia e o espírito da aventura – este homem seria o personagem principal do primeiro romance de Lúcio Cardoso, Maleita (sic.), publicado em 1934. (AYALA, s/d, p. 01). Isso vem ao encontro do que queremos postular neste artigo: o pai de Lúcio Cardoso é um dos sujeitos reais, transfigurados pelo escritor em seus romances e novelas, o que aponta para uma relação bastante coesa entre biografia e escrita. Conforme Cássia dos Santos, “somente em 1967, com a publicação de Por onde andou meu coração, o primeiro livro de memórias de Maria Helena Cardoso, que o público leitor pôde ...

Haicais em Cataguases

  Capa: Tadeu Costa A revista literária Chico´s Cataletras , número 75, de junho de 2024, de Cataguases, Minas Gerais, publicou seis haicais inéditos de Rubens Shirassu Júnior, de Presidente Prudente, oeste do Estado de São Paulo, nas páginas 37 e 38. A linha editorial da publicação com temática livre, inclui poemas, contos, crônicas, resenhas, anúncios de eventos, na seção “Detalhes”, que divulga concursos literários, lançamentos de livros, palestras etc. No editorial, o conselho editorial mostra-se solidário com a população do Rio Grande do Sul expressando: “Nesta edição, a revista chega com o inverno, ainda encharcada de dor, com a dor dos gaúchos.” Tradição cultural Cataguases evidencia-se por ser uma cidade modernista, onde reflete a valorização da cultura. Várias de suas construções são assinadas por nomes consagrados, como Oscar Niemeyer, Burle Marx, Cândido Portinari, Paulo Werneck, ZanZach, Joaquim Tenreiro, Francisco Bologna e José Inácio Peixoto. Humberto Mauro,...