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O confrontador do establishment

 

Campos de Carvalho — em todas as narrativas que escreveu — demonstra notável domínio de linguagem, riqueza de vocabulário, precisão semântica, agilidade das frases sempre bem construídas e sábia alternância entre períodos longos e breves. Tudo isso, exerce fascínio sobre o leitor atento. 

Nada na escrita de Carvalho fica por conta do acaso ou da improvisação irresponsável. A linguagem de que ele se serve é de fazer inveja a qualquer clássico da língua. Tal linguagem conduz enredos pouco convencionais. A lua vem da Ásia, por exemplo, apresenta um personagem — “Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo” — em um local que pode ser hotel, campo de concentração ou hospício. Aparentemente, a loucura mostra-se o tema central da narrativa. Mas isso seria apenas uma metáfora, despiste de escritor genial. ‘Loucura’ é a mediocridade da nossa vida cotidiana — aí, sim, impera a lei do absurdo. Há muito mais loucos fora do que dentro do hospício, como já sabíamos desde O alienista, de Machado de Assis.

Em Vaca de nariz sutil, o protagonista, um ex-combatente que divide um quarto de pensão com certo Aristides, um surdo-mudo. A obra revela a percepção aguda da morte, mais a perplexidade do narrador, diante da falta de sentido de tudo. Não dá para separar uma coisa da outra. A busca por um sentido, para tudo, também está presente em A chuva imóvel. “A morte sendo o único problema verdadeiro, o único com o qual a gente deve se preocupar. Tudo o mais são só manifestações avulsas e descartáveis da precariedade do ser humano, da falta de sentido da existência. Parece ser esse o (com perdão da palavra) pensamento que o autor passa ao leitor, indiretamente, por meio do personagem-narrador, em relação ao livro A chuva imóvel — narrativa que tem André e a sua irmã-gêmea Andréa como protagonistas.

Já O púcaro búlgaro mostra, em um primeiro plano, uma tentativa de realizar uma excursão à Bulgária. A obra tem como objetivo maior denunciar o nonsense, o sem sentido da existência. Não sei se é o livro de maturidade de Carvalho, mas o que mais atrai e espanta o leitor, deixando-o à vontade para enxergar com mais lucidez o mundo em redor.

Na minha avaliação, há um mesmo narrador em todos os livros de Carvalho. E ele tem uma ideia fixa: todo o absurdo da realidade não se justifica já que somos todos mortais. Chamo a atenção para a primeira frase de A lua vem da Ásia: “Aos 16 anos matei meu professor de lógica.” Uma frase emblemática. Ele já antecipa o que podemos e devemos esperar: a lógica está morta, junto com o professor. O mundo não é lógico, nada faz ou tem sentido. O absurdo, para o narrador, é a própria existência. A nossa infelicidade vem quando tentamos encontrar lógica e dar ordem a esse caos.

Observo que nem o texto nem os personagens de Carvalho agem por uma lógica feijão com arroz, a lógica do dia a dia dos funcionários e burgueses bem pensantes. A lógica dele é a lógica das associações, da imagina(ção) perfeitamente solta. Acrescento que, na ficção do prosador, sempre há humor, que varia entre brincadeiras leves a um humor dramático, absurdo ou mesmo meio mórbido. Mas a introspecção dos seus narradores chega a ser sufocante. Eles mal chegam ao mundo. Estão às voltas com coisas na própria cabeça. O mundo é apenas uma nebulosa ao redor.

Carvalho foi na contramão da prática dos autores realistas, que procuram seduzir os leitores para um simulacro arrumadinho da realidade, um mundo concreto e reconhecível: ele despreza essa literatura e olha a dita realidade com muita suspeita. Aceitar o jogo dele é viver um tempo na cabeça dele, com essa suspeita. A realidade tem mais furos que todas as peneiras que já existiram. Campos de Carvalho está aí, entre esses furos.

Utópico radical

Identifico uma série de características na obra de Carvalho, entre as quais estrutura narrativa fragmentária e labirintiforme, sobreposição intercadente de memórias biográficas e de pseudobiografias dos protagonistas, deslocamento de reminiscências para um domínio nebuloso do discurso e lampejos que parecem provenientes ora de um estado de vigília, ora de um estado de delírio. É isto que conduz as obras e desafia os leitores.

Não deixo de observar que todos os livros do escritor são narrados em primeira pessoa. Destaco outras nuances no legado de Carvalho, explicitadas pelos narradores, como o interesse pela sexualidade problemática, a revolta contra as instituições, o desejo de implodir a ordem existente e afrontar as religiões, as crenças, os dogmas, a moral, a família e o sentido de vida gregária. 

É uma literatura cujo objetivo é o de se contrapor ao establishment. Mas tudo isto não encobre o profundo sentido humanista que anima os livros do autor e a enorme vontade de regeneração da condição humana da qual sua obra é portadora, para quem o centro de gravidade de toda a literatura do autor é a utopia, como meio e como fim. 

Saliento que, ao dotar os seus personagens com um pronunciado espírito de desordem — que, em boa medida é o espírito de autoria —, Carvalho oferta, em essência, o anarquismo utopista como pilar. A razão pela qual o estado de espírito utópico teria nos anarquistas a sua melhor representação — e sua máxima potência — vem especialmente da convicção de aniquilar a ordem ou, mais especificamente, toda e qualquer ordem. Esta é a condição fundamental de existência da conduta anarquista e a chama que alimentará todo anarquismo. Ainda destaco que, para um verdadeiro anarquista, qualquer ordem existente é nociva e não se diferencia de outra ordem existente. Vejo aí a razão de fundo dos livros de Campos de Carvalho. 

Absolutamente atual

Lamento que a obra de Carvalho seja, em geral, conhecida apenas por alguns estudiosos e escritores — e, no caso dos ficcionistas, uns amam ou admiram, mas ele não identifica influência do autor de A lua vem da Ásia em nenhum prosador brasileiro contemporâneo. Também não encontro eco da obra de Carvalho entre autores brasileiros. Penso que ele continua único no estilo ao qual deu forma e que encantou muitas gerações de leitores, apesar do silêncio a que se submeteu ou a que foi submetido. 

Lembro que, desde A lua vem da Ásia, Carvalho vem sendo classificado como “marginal”, em razão da rebeldia, da irreverência, da postura claramente subversiva que adota diante dos valores consagrados pela tradição. O estudioso observa que, ao longo das décadas que nos separam da grande comoção que seus livros provocaram, alguns fenômenos ocorreram. Protestar, contestar, transgredir, ou rejeitar os valores vigentes, aos poucos foi virando moda. Muita gente, muitos artistas e escritores, adotaram como norma... transgredir. Quando isso acontece, a subversão deixa de subverter. Uma vez adotada pela maioria, pelo menos da boca para fora, a subversão é logo absorvida pelo sistema e transformada em commodities

Há anos, ressalto, a marginalidade migrou das margens para o centro — e transgredir passou a ser a nova e vitoriosa tradição. Isso explica um outro fenômeno, relativo à nossa desmemoriada vida literária. Autores genuinamente marginais, como Carvalho, são condenados ao esquecimento, tão logo ameacem pôr fogo no circo. E de tempos em tempos precisam ser repostos em circulação. É o que tem acontecido com o nosso autor, de 20 em 20 anos. 

O impacto da obra de Carvalho, comparado com o que aconteceu quando ele surgiu e publicou os seus livros, não é nem poderia ser o mesmo hoje. Primeiro, porque as coisas mudaram, as expectativas, agora, são outras — depois porque, afinal, nada se repete. Mas a necessidade de verdadeira subversão, de transgressão genuína, empenhada em romper com a lógica do absurdo que passou a imperar, atualmente é ainda mais premente. Hoje, eu diria que Campos de Carvalho faz mais falta e é mais atual do que era, 60 anos atrás.

 


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