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Lamentações do tártaro IV












Pela sua surdez,
o rio é uma cobra esculpida
de so(m)bras de terra
diante do meu olhar
crava-me um deserto
nas entranhas.



O rio desmonta o seu curso
iça suas velas, sumindo
suas imagens
se interna dentro do poço
do calabouço em si mesmo.



Nada me aparta do manancial,
sem domínio, sem obsessão,
maior que o prazer de explorá-lo,
não é a sensação de descoberta,
mas a música interior que a água compõe,
desmedida de minha alma, de meu espírito,
exigindo um rompimento altivo
e definitivo com o medo.



O rio corre adiante
viaja entre as estrelas
me escapando das artérias
dos olhos.
Te vejo como leito
sem pulso, estirado
um outro rio percorre
em tua calha exposta.
Escoadouro de pruridos,
do insano progresso,
acumulando pedras nas vísceras,
represa anzóis,
onde arrastei cardume de sonhos
na pele rugosa, hoje, cansada,
aos trancos e barrancos,
hiberna tantos (des)caminhos
camuflando diviso outras miragens
engolindo minha história,
indigente sonâmbulo.
Entre detergentes, óleos, solventes e ácidos,
o rio absorve e não expurga,
embrenha na alma catatônica.

 






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