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Cultura líquida das aparências (Parte 3)





Alguns acontecimentos da segunda metade do século XX, como a instabilidade econômica mundial, o surgimento de novas tecnologias e a globalização, contribuíram para a perda da ideia de controle sobre os processos do mundo, trazendo incertezas quanto a nossa capacidade de nos adequar aos novos padrões sociais, que se liquefazem e mudam constantemente. Nessa passagem do mundo sólido ao líquido, Zygmunt Bauman chama atenção para a liquefação das formas sociais: o trabalho, a família, o engajamento político, o amor, a amizade e, por fim, a própria identidade. Essa situação produz angústia, ansiedade constante e o medo líquido: temor do desemprego, da violência, do terrorismo, de ficar para trás, de não se encaixar nesse novo mundo, que muda num ritmo hiperveloz.
Para a sociedade da cultura líquida, a marca do artista não tem espaço. Isso porque ela milita contra o sacrifício das satisfações imediatas em função de objetivos distantes, bem como questiona o valor de sacrificar satisfações individuais em nome de uma “causa” ou do bem-estar de um grupo. Essa sociedade despreza os ideais de “longo prazo” e da “totalidade.”
A globalização para a maioria dos habitantes do planeta equivale à profunda deterioração de suas condições de vida? Devemos compreender que o resultado imediato da emancipação da atividade econômica em relação a qualquer critério, exceto o de multiplicar lucros, foi um crescimento sem precedentes da produção e da acumulação de riquezas, e também uma polarização aguda e violenta dos padrões de vida, gerando uma desintegração das redes habituais de proteção formadas por vínculos, obrigações e compromissos humanos. E a globalização unilateral limitada aos empreendimentos comerciais é percebida acima de tudo como uma perda de controle sobre o presente e uma incapacidade de prever o que o futuro trará, reforçando a insegurança.
Sem estrutura social, não se cria uma cultura, uma eficiente ferramenta da administração de tensões e enfrenta quaisquer brechas da norma, fraturas e desvios ocasionais que ameaçam afetar o “equilíbrio do sistema”. A manutenção do equilíbrio seria a autopoiesis, de Humberto Maturana, um termo biológico usado também na sociologia.

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