Noite entre arestas das grades
mas
viva
espremida
noite vida entre barras
ferros,
mágoas,
mas
viva
Noite
do medo
escorregando
a coluna vertebral
e
sangrando
como
um nó cortado de carne
mas
viva.
Noite
de meta-fora
da
jaula precisa
é
corpo de lembranças
a
noite aninhada
gaiola
da
noite de linhas retas,
das
entrelinhas
noite
que absorve
noite
flechafechada
A
gaiola é pesada
ao
cair na noite grande.
A
gaiola da noite no espelho
e
sua aventura espessa
a
noite na gaiola
sobre
as pálpebras,
acesa.
A
gaiola da noite devoradora
da
forma.
Inteira
noite gaiola para sempre
e
para sempre estilhaçada.
Noite
em giro círculo fechado
e
mais que fechado,
fechado,
até
os extremos da parede
se
tocarem
para
celebrar
e
lembrar,
ecos
dos gritos
parados
no ar.
Noite
na gaiola marcada a ferro,
lado
esquerdo das coisas.
Noite
com a medida e peso,
Simétrica
noite vinculada
forjada
nos metais,
braseiro
da alma de pássaro,
impressa
em alto relevo
em
carne viva, a identificação
acesa
rápida mordida dolorida
voraz
do tempo,
noite
flechafechada,
dentes
de chumbo da noite grande,
face
do medo de ontem,
no
obscuro desfiada,
e
afiada no silêncio das lâminas,
e
nas urdiduras da noite afiada
da
fala.
Dentro
da noite da gaiola
o
rosto se recolhe
dentro
da noite da gaiola
o
corpo se assume
onde
o precário coração
palpita
entre grades.
Noite
do corpo da gaiola
não
da imagem do corpo.
Do
corpo exposto às tatuagens de viver
do
azul da cor do mar,
das
ruas, avenidas, ao livre espaço
ao
sereno.
E as
quimeras
e a
cela de estar sem identidade,
as
leis, os códigos, as regras, limites
do
institucionalizado cativeiro.
As
asas abertas
a
língua solta
a
semente da fala
a
língua serpenteia o salto
o
buraco da história,
ilumina
a
quem se cala.
A
língua celebra a asa
da
lavagem da palavra
até
o osso.
A
língua lambe
os
cortes das asas
na
cartilagem da palavra.
Mas
a língua lembra
o
âmago corpo,
o
amargo verbo voar
das
asas dos pássaros.
A
língua se bifurca
na
estória desta gaiola
Fundo
poço
do
calabouço.
E
rasteja
antes
e depois
das
trevas,
das
frestas,
entre
colunas amareladas,
da
alta noite.
Habita
cada momento
que
existe dentro do cubo.
Ao
pássaro preso se nega
A
condição acabado.
Não
é um pássaro que voa:
é
um pássaro incubado
sobra-lhe
uma roupa enjeitada
que
lhe decepa as asas.
O
pássaro preso é um pássaro
recortado
em seu domínio:
não
é o dono de onde mora,
nem
mora onde é inquilino.
*Prêmio Literário Cânon de Poesia 2011

Comentários
Postar um comentário