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Diverso, filosófico e limpo


 
 
 
 
 
 
 
            O livro de poemas De Viva Voz, de Anderson Braga Horta, apresenta temas muito diversificados: desde uma recordação saudosa até poemas filosóficos, sempre de modo simples e limpo, mas sem ser piegas, como analisa Napoleão Valadares no texto da orelha e contracapa.
         Mas variada é também a forma, quando inclui poemas de versos livres entremeados com haicais e sonetos. A última parte, Campo sem Tempo, compõe-se somente de sonetos.
         E o poeta Braga Horta elabora também um conjunto de versos que resulta em sentenças em outros lugares, a exemplo de Lendo Spinoza: “Aquilo que não seja / nem Amor nem Razão / não existe no Cosmos, / é sombra, é zero, é maia, / nada mais que ilusão.”
           
O autor
 
         Anderson Braga Horta nasceu em Carangola, cidade da Zona da Mata mineira. Passou por Goiás e Rio de Janeiro e está desde 1960 em Brasília, no Distrito Federal. Poeta, contista, ensaísta e tradutor publicou os livros, entre 1971 e 2011, Altiplano e Outros Poemas, Marvário, Incomunicação, Exercícios de Homem, Cronoscópio, O Cordeiro e a Nuvem (antologia), O Pássaro no Aquário, Dos Sonetos na Corda de Sol (antologia), Pulso, Quarteto Arcaico, Dos Fragmentos da Paixão: Trinta e Três Sonetos (antologia), Antologia Pessoal, Carta-Oração em Feitio de Poema à Força Jovem da América (opúsculo), Cinquenta Sonetos (porta-fólio), 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, Zoopoemas (opúsculo), Soneto Antigo, Lua da Fonte/ Elegia de Varna (em português e búlgaro), Signo – Antologia Metapoética e De uma Janela em Minas Gerais – 200 Sonetos.
 
 
CHAMA
 
 
             Que somos nós? Que sopro o quanto somos
                   nos infundiu?  E quem nos denomina?
                   De que abismos e incógnitas os pomos
                   tu és e eu sou? De que impossível mina
 
                   brotam do ser os impensáveis tomos?
                   De que não-ser nasce a luciferina
                   treva que um dia fui, que todos fomos?
                   E quem tal treva amolda e a translumina?
 
                   Que seremos ao fim desta jornada
                   cujo parto em olvido se derrama?
                   - o que éramos? – o caos, a noite, o nada?
 
                   E, se algo deste dédalo perdura
                   que restará de nós além da chama
                   que nos incende a carne e a transfigura?
 
(Página 122)
 
 
            DE VIVA VOZ
         Anderson Braga Horta
         Poesia
         1ª edição, 2012
         136 páginas,
         Formato 14x21cm.
         Thesaurus Editora
         Brasília – Distrito Federal
 

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