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O arqueiro, as flechas e o canteiro

  Um convicto jardineiro de poemas. Entrega-se aos acasos para poder vislumbrar detalhes ou cenas quaisquer, donde se depreendesse o sinal possível, espiralado, que permite o estirar de uma frase natural. O poeta sempre atento na ponta dos olhos, aceita a emendar palavra com palavra em meio à limpeza das mesas poéticas; não quer a poesia remediada, de tato virtual, nem a fria plumagem da língua. Prefere o exercício diário na sua residência ou nas ruas e avenidas. Colhe as coisas nas estrelas e tenta tocar suas mãos ansiosas no girassol em chamas, o sol, revira a natureza, os olhos sob as fases da lua. Quanto mais se distancia do cotidiano corriqueiro e letárgico, sorve melhor a atenção dos encontros. Gosta de viajar para longe, bem longe, até que o cansaço o faz surpreender-se com a imagem solitária de um tronco de árvore ou com os rabiscos de um muro que circunda um terreno baldio lotado de entulhos. Joilson Portocalvo, o arqueiro poeta em Quintal do meu coração , de olhos a...
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Compulsão e sem prazer

  Dentre as formas prazerosas contemporâneas se destaca o prazer de deleitar no beber e no comer, como uma das maneiras de driblar ou escapar do mal-estar na cultura. Além de estar associada à qualidade de vida, condição de saúde e beleza, a alimentação tem despertado o interesse acadêmico, resultando em número crescente de publicações sobre os hábitos alimentares e os rituais a eles relacionados. Presentes nos momentos mais marcantes da vida em sociedade, estes hábitos e rituais permitem compreender melhor padrões de culturas e mentalidades como instrumentos de comunicação, metáforas de afeto, necessidades de pertencer e expressão de identidade. Na última década do século 20, a comida e a bebida abriram portas para novos desejos, profissões, objetos de consumo, formas de relacionamentos, cerimônias de agregação, obras literárias e cinematográficas. Tornou-se cada vez mais evidente que, sob o domínio da linguagem, o comportamento de se saborear extrapola o âmbito da necessidade e...

Marca do passado

Há uma velhíssima tradição escrita que cultua o ato humano de comer. Esse ato, por mais individual que pareça ou por mais solitário que possa ser numa dada circunstância, esse ato é social e, vincado à natureza, tem caráter cultural. Ato, assim, da natureza viva e vivente, e da cultura exercida sobre a natureza e os homens entre si. Cozinhar, entretanto, é uma ação de caráter cultural, que nos liga sempre ao que fomos, somos e seremos, com o que produzimos, cremos, projetamos, sonhamos, gozamos. Toda cozinha tem a marca do passado, da história da sociedade, do povo, da nação a que pertence. Os leitores saberão a razão da cena envolvendo comidas e bebidas sob os olhares dos escritores, entre outras reflexões, que integram o livro de ensaios “A literatura na degustação,” de Rubens Shirassu Júnior. Você pode encomendar o livro pelo link abaixo da Editora Escola Cidadã: https://www.editoraescolacidada.com.br/2024/07/pre-vendas-literatura-na-degustacao.html     ...

Formação do nosso paladar

No livro A literatura na degustação , de Rubens Shirassu Júnior, serão determinantes as narrativas que falam de receitas recolhidas, vindas provavelmente de tempos longínquos, depositados nos vãos da Memória Cultural, entendendo-a como um campo de negociações culturais através dos quais diferentes narrativas compõem seu lugar na história. É sobre essas narrativas contadas e recolhidas pela Literatura Contemporânea enquanto patrimônio e linguagem, que o escritor e o ensaísta de Presidente Prudente, São Paulo, discorre. Por isso, da maior importância ressaltar a relevância da obra do folclorista e etnólogo Câmara Cascudo (2004), o qual realizou uma pesquisa profunda sobre as práticas culinárias no Brasil, seu livro “História da Alimentação no Brasil” . O autor não faz, neste livro, apenas um levantamento etnográfico, mas também organiza um panorama da história literária sobre o assunto. A obra de Câmara Cascudo (2004) possui um valor fundamental para esta pesquisa, visto que o autor faz ...

Culinária de sentidos: corpo e memória

  Os textos de escritores que relacionam literatura e culinária levou Rubens Shirassu Júnior a fazer uma reflexão sobre a Memória dos Sentidos dentro de um espaço específico, a cozinha, entendida como um lugar de rito que transfigura os corpos. A partir desse recorte, no livro A literatura na degustação, o escritor procura relacionar a representação do feminino, do corpo na cozinha e na confecção do alimento, nos textos de autoras femininas incorporadas ao corpo desse trabalho, são elas: Rachel de Queiroz, Cora Coralina, Adélia Prado, Heloísa Helena, Márcia Frazão , da mexicana Laura Esquivel e da chilena Isabel Allende , percebendo as diferenças escriturais na maneira de construir o corpo a partir da relação com a culinária, pois os hábitos alimentares são como textos que narram a história de constituição de um grupo. Entre os escritores: Eça de Queirós, Gilberto Freyre, Homero, Jorge Amado, Machado de Assis, Marcel Proust, Rubem Braga, Thomas Mann, William Shakespeare etc. ...

Magia de degustar

Alina Sokolov * Há uma velhíssima tradição escrita que cultua o ato humano de comer. Esse ato, por mais individual que pareça ou por mais solitário que possa ser numa dada circunstância, esse ato é social e, vincado à natureza, tem caráter cultural. Ato, assim, da natureza viva e vivente, e da cultura exercida sobre a natureza e os homens entre si. Cozinhar, entretanto, é uma ação de caráter cultural, que nos liga sempre ao que fomos, somos e seremos, com o que produzimos, cremos, projetamos, sonhamos, gozamos. Toda cozinha tem a marca do passado, da história da sociedade, do povo, da nação a que pertence. Por esse motivo, as grandes cozinhas "nacionais" – a chinesa, a japonesa, a francesa ou a coreana, por exemplo - não são importantes porque nelas uma parte da China, do Japão, da França ou da Coreia tenha imposto seu estilo culinário ao resto do país. Ao contrário, são grandes, importantes e apetentes, porque incorporaram e somaram os achados gastronômicos de todos os s...

Perfis históricos e escritores interioranos

  A revista literária Chico´s Cataletras, número 76, de setembro de 2024, de Cataguases, Minas Gerais, publicou o poema inédito “(Re)trato im(Prudente),” de Rubens Shirassu Júnior, de Presidente Prudente, na página 65 e a resenha “Sabores no corpo da memória,” sobre seu livro de ensaios “A literatura na degustação,” na página 79. A linha editorial da publicação com temática livre, inclui poemas, contos, crônicas, resenhas, anúncios de eventos, e na seção “Detalhes”, divulga concursos literários, lançamentos de livros, palestras etc. Destacam-se na publicação a tradução do poema “Eldorado – 1849,” de Edgar Allan Poe por Emerson Teixeira Cardoso (pág. 27) o perfil histórico e artístico do multiartista plástico Pury (pág. 9), autor da escultura “Mandala”, que ilustra a capa desta edição, “A literatura fora dos grandes centros,” de Hugo Pontes (pág. 74), “Cooperativa de poetas 40 anos,” de Cadu Cardoso (pág. 77). Tradição cultural Cataguases evidencia-se por ser uma cidade mode...