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Pedaço do Brasil






Paulo Gracindo destaca-se por dar ênfase
nos diálogos de seu famoso personagem





O Bem Amado, de Dias Gomes, era uma sátira, bem-construída e encenada, aos  políticos corruptos e à vida cotidiana interiorana, recheada de fatos pitorescos que, às vezes, beiravam ao absurdo. Dias Gomes dava um dinamismo satírico as suas histórias.
Sua fotografia litorânea, filmada no Rio de Janeiro (mas com uma história centrada na Bahia) era de encher os olhos e seus personagens bem-caricatos possuíam uma riqueza de comportamentos que transformava cada um deles numa imortal figura da história da nossa televisão.
O que fazia da série um sucesso tão grande, provavelmente fosse por que Sucupira era um pedaço do Brasil, com toda sua variedade e riqueza cultural, Dias Gomes chegou a dizer que sua dúvida era se o Brasil é uma grande Sucupira ou seu microcosmo".
Uma das marcas de maior destaque do seriado – bem como na novela – era a tripologia popular. O autor concentrou numa cidade do interior figuras representativas de tendências, comportamentos e características comuns a modos de vida presentes em todo o País.  
É o caso do episódio "O Povo de Deus e o Milagre dos Coronéis", Zeca Diabo (interpretado por Lima Duarte), ex-cangaceiro, assume o posto de delegado, investido pelo prefeito, cuja segunda intenção era a de que o ex-cangaceiro fizesse um defunto para inaugurar o cemitério de Sucupira. Um prato cheio para Maneco Pedreira, Tuca Medrado e o fotógrafo Caboré d´A Trombeta, um jornal de oposição que censurava violentamente a nomeação de Zeca Diabo com manchetes sensacionalistas. Símbolos da imprensa que existiu nas décadas de 60 e 70.
A novela sofreu vários cortes da censura. Um dos casos de maior repercussão ocorreu em 1982, quando a Divisão de Censura da Polícia Federal cortou a seguinte frase de Odorico Paraguaçu: “não tivesse eu jurado fazer de Sucupira uma democracia, mandava botar todos eles num pacote e jogar no mar”.
No seriado, que termina em 1984, o progresso finalmente chega à Sucupira. Com a abertura do regime militar, o autor pôde tirar suas críticas perspicazes e bem-humoradas das entrelinhas e abordá-las de forma mais clara. Com isso, tratou de temas difíceis de serem tratados na época da exibição da novela. No episódio “A inflação está morta, viva a inflação”, Odorico Paraguaçu encontra-se em duas situações difíceis. Primeiro, recebe uma denúncia de que uma rede de “muambistas, cocainistas e maconhistas”, como o próprio personagem descreve, estava atingindo Sucupira. O prefeito realiza então uma operação “desentoxicante e desintoxicológica”, mas só acha açúcar no carregamento suspeito. Depois, Odorico elabora um plano para combater a inflação: aumentá-la para 300%. Decidido a conversar com o Ministro do Planejamento, ele acaba preso junto com Zeca Diabo (interpretado por Lima Duarte), depois que os dois forçam a entrada na Câmara dos Deputados em Brasília.
Odorico Paraguaçu, um dos personagens mais populares da televisão brasileira: sobretudo, um tipo autenticamente nacional, nos seus "entretantos para chegar aos finalmentes", arquétipo de muitos políticos tropicais. Um herói farsesco tão bem articulado não poderia deixar de ser aproveitado por um veículo de comunicação de massas: transformado em programa semanal, no final dos anos 70. "O Bem Amado" é uma amostragem microscópica de uma realidade atual.


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