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Ossada de Lorca III




Busto de Federico García Lorca










Pintou com a tinta das letras
a nau, não por pintar.
Mas acreditou que nela havia
onde chegar.
Ninguém mais crê nesta magia
a notícia de tua morte,
poucos sabem onde estás.
Poderão entender
se faz diferença estar morto
ou se é melhor morrer
ao perder o descaminho.

Não há linha que te vá deter
Não te importa saber aonde levas,
à extensão do que querias
o que querias é muito adiante
quiseres chegar
mas sempre se ergue adiante
um campo por guerrear.


Ninguém sabe para onde foi.
Apenas suspeita.
Hoje, ocorre um tempo nublado:
é o não pensar.
Esconder o fim e a tempestade,
se é impossível crer.
Isso de esperança não existe.
Existe a ossada
do pássaro que se foi
e não mais se viu.
O sangue já não se sente
onde agora há só o querer passado
 e a vontade fria
na treva que ofusca.
No corredor da escuridão não há volta,
resta abismar.
Este não afunda porque já afundou
no meio do abismo navega
como se fosse no mar
- ambos mares, ambos abismos,
perdidos, eternos, findos
ir tão longe de nada mais ver.









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