Pular para o conteúdo principal

Amarcord, O Tempo Redescoberto





Cartaz de divulgação













           Impossível não lembrar de Amarcord. Pelo que sugere na reconstituição de cada instante da vida, das nossas circunstâncias, do retrato do passado de cada um, de uma época, de toda uma cidade. Federico Fellini põe diante da gente, num simples enquadramento de uma tarde, o que talvez Marcel Proust tenha passado a vida reconstituindo. Como num ciclo que dura uma primavera, vemos passar à nossa frente o tempo da infância e da velhice. Os amigos que se foram, as namoradas que quisemos e não tivemos, as ilusões da escola, a galeria dos mestres que nos marcaram para a vida toda, a consideração pelos párias, que não deixaram de ser párias. E ficamos para sempre encantados pelas músicas de Nino Rota (1911-79), que reacendem em nossas vidas um desejo impossível de começar tudo de novo ou de reencontrar um sentido para nossas vidas.
         É uma grande lição que só a arte pode nos dar. Renascemos com Fellini a cada ilusão que perdemos. Revivemos com ele um universo de seres e lembranças que nasceram com a gente e sempre nos acompanharam. Depois dele, a recordação deixou de ser um mero capricho. Amarcord reencontra o tempo perdido e nos mostra que só nele a vida pode ser vivida em sua plenitude. Não importa se para rir ou para chorar.






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PAU

pau-brasil em foto de Felipe Coelho Minha gente, não é de hoje que o dinheiro chama-se Pau, no Brasil. Você pergunta um preço e logo dizem dez paus. Cento e vinte mil paus. Dois milhões de paus! Estaríamos assim, senhor ministro, facilitando a dificuldade de que a nova moeda vai trazer. Nosso dinheiro sempre se traduziu em paus e, então, não custa nada oficializar o Pau. Nos cheques também: cento e oitenta e cinco mil e duzentos paus. Evidente que as mulheres vão logo reclamar desta solução machista (na opinião delas). Calma, meninas, falta o centavo. Poderíamos chamar o centavo de Seio. Você poderia fazer uma compra e fazer o cheque: duzentos e quarenta paus e sessenta e nove seios. Esta imagem povoa a imaginação erótica-maliciosa, não acha? Sessenta e nove seios bem redondinhos, você, meu chapa, não vê a hora de encher a mão! Isto tudo facilitaria muito a vida dos futuros ministros da economia quando daqui a alguns anos, inevitavelmente, terão que cortar dois zeros (podemos d...

Trechos de Lavoura Arcaica

Raduan Nassar no relançamento do livro em 2005 Imagem: revista Usina             “Na modorra das tardes vadias da fazenda, era num sítio, lá no bosque, que eu escapava aos olhos apreensivos da família. Amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma, vergada ao peso de um botão vermelho. Não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor velando em silêncio e cheios de paciência o meu sono adolescente? Que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda?” (...)             “De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo...

Identidade narrativa e concepções

  (Fragmentos) A performatividade pode ser relacionada à construção de identidade narrativa do filósofo francês Paul Ricoeur, pois também é manifestada através e em um espaço de tempo. E justamente no tempo e no espaço - no caso de  Margarida , personagem de Dinah Silveira de Queiroz, espaços - que, performaticamente por intermédio de seus atos, a identidade da protagonista se desvela e se apresenta. Conforme apontado anteriormente, nas conclusões de  Tempo e narrativa  o autor já traz a afirmação de que a identidade narrativa permite apreender um sujeito em sua constante mudança, pois a mutabilidade não é excluída da coesão de uma vida (Ricouer, 1997). Em  O si-mesmo como um outro , ele preconiza que, apesar das transformações, há algo de permanente: “a ameaça representada para a identidade só será inteiramente conjurada se, como base da semelhança e da continuidade ininterrupta da mudança, se apresentar um princípio de  permanência no tempo ” (Ricouer,...